sexta-feira, 20 de maio de 2011

Céu



..."A garoa beijava minha face e a escuridão me lambia entre os escombros"


 Era uma noite friazinha, dava  vontade de ficar no sofá assistindo filmes, mas não fiquei, fui para a cama tentar me livrar do cansaço do dia. Sempre me doei tanto para todos, fui me entregando o máximo que pude sem nem perceber, tolice a minha me colocar em uma bandeja para servir de alimento para abutres famintos. Acho que eu estava sendo sugado! E eu sei, a pior coisa que existe é a incompreensão. Algum cisco deve ter caído em meus olhos, talvez uma irritação devido a lente de contato, quem sabe um sintoma de cansaço nas vistas, não sei agora, mas alguma coisa desse tipo acontecia comigo porque todo mundo já sabe que homem não chora. A fatalidade da vida não é a fatalidade do que é fatal é a fatalidade de sentir-se frustrado. Pior é ninguém se importar por mais que você esteja gritando com os olhos os seus problemas, ninguém quer saber, você não quer saber, eu mesmo não quero saber. Fiquei bem ali jogado, espalhado, espatifado em cima da cama sem vontade de levantar para beber um pouco de água. Porra! Nem isso eu era capaz de fazer? Eu me dei o perdão, eu não era assim e sem desculpas agora, eu realmente tinha sido sugado e por isso o desanimo da vida, de viver, de respirar. Eu tinha sido sugado pelos meus amigos, pela minha família, pelo meu emprego, pela minha menina, pelo vizinho... A vida tinha me sugado, tirado todo o brilho dos meus olhos. Por Deus, no que eu estava pensando? Eu realmente estava frustrado! Aquela não era a minha vida, não era ali, não era hora e nem lugar! E quando foi que eu me perdi de mim? Será que eu segurava em sua mão e então depois eu me perdi? Eu segurava alguma mão? Mas mão de quem? Agora eu já não sei, mas posso dizer que me perdi e agora nada mais parece ter sentido. Lembrei-me de tempos passados em que eu ficava deitado na rede da área vendo a chuva cair, enquanto a água do céu ia aguando o solo alguns moradores saiam correndo com as mão na cabeça tentando não se molhar e eu de lá ficava observando e sorrindo, quando a chuva ficava forte me dava um desatino e eu sem pensar saia correndo embaixo dos pingos, muitas vezes até descalço, eu e a chuva em uma festa que só eu entendia, depois ia tomar banho quentinho do chuveiro com um sorriso satisfeito no rosto, parecia que não existia nada melhor no mundo inteiro e sabe não existia mesmo. Lembrei que ontem choveu e fiquei com mal humor por ter ficado ensopado, meu terno que me deixava elegante todo molhado me dava a impressão de um panaca. Sorri irônico de mim mesmo, afinal no que eu havia me tornado mesmo? Em alguém que eu sentia repulsa, em tempos atrás eu sorriria da situação e faria pouco caso do terno molhado, mas isso antes, muito antes de eu começar a me perder. Encolhi-me na cama e chorei, admiti que eu era quem eu não queria e que eu precisava encontrar meus antigos pedaços, colher do chão os meus cacos e voltar para mim mesmo. Cochilei brevemente e quando acordei meu coração estava calmo, mas tinha uma inquietação nele, uma vozinha lá longe que fazia eu ter vontade de olhar o céu, dar uma espiada nas estrelas e uma analisada na lua. Foi uma ideia que começou pequena em minha mente e que foi tomando força e forma própria com o passar dos minutos parecia um grito implorando pra que eu fosse ver  o céu, olhar a noite. Senti euforia e uma leve felicidade, já que eu teria que me achar novamente por que não no silêncio da noite, na claridade do céu devido a lua? E de repente era o que eu mais queria, ver tudo que antes eu achava tão lindo e que hoje quase não dava tempo de observar, o coração acelerado, eu quero, eu quero! Levantei rapidamente da cama e quando fui chegando perto da janela eu perdi o passo, minhas pernas embaralharam e tudo mexeu, havia um barulho ensurdecedor que me reprimia ate´de pensar, antes que tudo se desfizesse eu ainda dei uma rápida olhada para a janela, ainda pude ver um pedacinho de céu, mas tudo começou a cair sobre mim, meu quarto se desfez e eu me desfiz dentro dele. Eu não sei mas a garoa beijava minha face e a escuridão me lambia entre os escombros. Com certeza terremoto, pelo menos foi no que pensei e depois pensei em ver o céu, antes de terminar meu pensamento fui perdendo os sentidos, fui sendo despido por uma escuridão que me puxava com uma força que nem se eu lutasse muito conseguiria vencê-la. Eu lutei desesperado, mas não pela minha vida e sim porque eu só queria ver o céu. Fui-me assim sem saber, pela força da natureza fui levado para o mar da escuridão. Eu ainda estou perdido, lutando para me encontrar, mas todos os dias eu tenho tido força para esperar o meu lugar, mas por mim eu ficaria por aqui mesmo é que sentado ao lado de minha lápide quando anoitece e amanhece o céu eu posso olhar, é pena que quando eu estava de lá e quando o sol ainda aquecia minha pele eu nunca tinha tempo para reparar a beleza que o céu pode nos dar.

2 comentários:

Bianca Vieira disse...

"Encolhi-me na cama e chorei, admiti que eu era quem eu não queria e que eu precisava encontrar meus antigos pedaços, colher do chão os meus cacos e voltar para mim mesmo."

Acho que não preciso fazer nenhum comentário sobre esse trecho né? Ou sei lá, poderia dizer que senti empatia, um tapa na cara.
Eu estava escrevendo sobre isso às 3 da manhã.
Meu Deus, vou mandar pra vc ler. Só fazer uns ajustes.
><

Bianca Vieira disse...

tem selo no meu blog pra vc, na página "selos" ^^