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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Desprendendo.


Pousada sobre o chão pedi pra Terra não me prender assim, pedi baixinho pra que pelo menos vez em quando também me deixasse voar. Eu não quero sentir minhas barreiras e nem perceber minhas limitações. Eu quero mais! Eu quero ser, quero desprender, quero fazer parte. Quero o contato pé descalço sobre o chão e vento desgrenhando cabelo e pensamento. Quero minha pele nua, quero-me pura. Quero a mim como realmente sou em essência.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pra me lembrar de olhar

       Olho assim ausente meio distante de mim. Olho como quem está olhando pela primeira vez e entre as nuances das formas repetidas insiste na possibilidade de se deparar com uma nova cor. Olho como quem já embaçou a vista por chorar. Olho. Enquanto olho recrio, refaço, ressuscito. Creio enquanto olho, mas não creio por olhar. Creio pelo que vem de dentro, pelo que me encosta de fora e depois de crer guardo no olhar, olho como quem olha com fé.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

Andando pelas ruas e lambendo a solidão de novo. Meu coração é cheio e purificado, se me sinto sozinha vez em quando é porque eu quero me sentir assim, me permito e me aceito. Faço  amor comigo mesma, penso e desejo. Entende? Nada muda, meu coração é cheio de mim mesma, minha mente nada mais é do que eu me manifestando. Minhas atitudes nada mais são do que eu me sendo. Não sei se foi o vento que trouxe esse frio e sinceramente eu gosto. Ainda não aprendi o que é liberdade, mas me sinto tao livre hoje. Talvez seja o vento... Eu quero ser o vento!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"Bela-flor". Flor brotou... Renasci!

                                                                Deixe-me curar do meu proprio mal, deixe-me ver com os olhos da alma...



Meu corpo anda demasiadamente ensopado de sal. E como pode? Tudo começou ontem, ou antes de ontem... Ou será que começou no momento em que nasci? A explicação é simples: não lembro! Mas ultimamente alem do sal que me tempera eu tenho visto flores azuis florir, parece que a primavera chegou! Mas o sol tem desaparecido muito e o céu anda sempre cinza. O mar parou de ter cheiro, as vezes sento lá na pedra e deixo a água molhar meus pés e depois recolher-se, fico esperando a maresia mas não consigo senti-la .  Mas isso não incomoda tanto quanto o que me ocorreu semana passada, o sol resolveu aparecer e apressei-me em ficar ali dourando minha pele, mas mesmo com o sol minha pele e alma não aqueciam. Devo ter perdido a sensibilidade da pele nestes dias tão sombrios. Talvez eu tenha sido envenenada nesses tempos difíceis, mas quem faria isso comigo? Eu sei, talvez tenha sido eu. “Perdão!”, sussurro baixinho, mas eu sei que ainda não ate porque eu já desaprendi a perdoar. Veneno demais entende? E foi eu quem me deixei levar entre esta podre ilusão de vida e eu sabia do veneno que tinha e mesmo assim fui caminhando neste abismo sombrio, fui integrando-me nas garras peçonhentas disto que chamo de sociedade. Odeio a mim por isso, e odiar nada mais é do que o reflexo das minhas veias ensopadas de veneno. Pode ser que eu tenha achado a cura! Mas primeiro tive que olhar dentro de mim para descobrir e depois tive que olhar ao meu redor. Sabe o que encontrei? Uma flor azul! Eu quis arrancá-la de lá e quase o fiz, mas eu sei que estou doente e egoísmo faz parte do veneno.  Afastei-me em desespero da flor e peguei uma caneta...

Tem uma flor que nasceu no parapeito da minha janela, pensei em arrancá-la para te entregar, mas sei que não posso e nem consigo. Não me cabe arrancar dali o motivo do brilho em meus olhos então presentear-te-ei com a minha alegria e os meus sorrisos. Deixo a flor lá, juro que cuido!

O bilhete foi pra mim mesmo, tenho tentado melhorar, arrancá-la de lá pra que? Se essa manhã acordei com vontade de sorrir? E foi por causa da flor. Eu poderia te-la em minhas mãos, mas ela morreria entre meus dedos. Parece que não, mas eu sei que logo estarei contando para a flor azul como é bom dourar a pele, molhar os pés sentindo a maresia, ter a pele e o sorriso doce, ter a alma bonita... Bonita como a flor!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tenho que confessar

Eu não vou pegar o cigarro hoje porque você não estaria aqui para implicar com a fumaça que eu jogaria em sua face e nem para reclamar do gosto que você diz detestar e ainda assim me foge o controle e me vem você roubando um beijo demorado. Já te disse ontem que tenho medo dos meus olhos ficarem cegos como os teus? Pois digo agora: tenho. E’ que a paixão e’ maluca meu bem, enxergo todos os teus defeitos e ainda assim não desejo refugiar-me em outro canto que não ao teu lado. Eu poderia ir se quisesse, se me fosse mais conveniente ou se a lua fosse mais bonita em outro lugar. Eu poderia andar léguas e sorrir milhares de vezes sem estar ao seu lado, poderia observar a aurora sentada sozinha e achar o momento perfeito, poderia ate’ mesmo engolir toda a solidão que insisto em alimentar. Eu poderia sim partir sem olhar para trás, poderia sim se você não tivesse aberto caminhos por entre minhas feridas e aconchegado-me ao lado dos teus sonhos, poderia sim se você não tivesse visto em mim as maravilhas que nem eu olhando a mim mesma consigo enxergar, porque o meu interior e’ nublado e vive chovendo por aqui, obrigado por ter trazido o sol. E por me fazer querer ser chuva, ser gota, arco-iris e oceano.

sábado, 2 de julho de 2011

Para entender-se

"Não é que eu estive embriagada, nem mesmo álcool eu tenho bebido, mas sabe quando te da aquele desatino? Acho que parei pra pensar e andando pelos labirintos dos meus pensamentos acabei me perdendo de forma tal que nem um sinalizador poderia me livrar do meu devaneio, admito: perdi-me ao chegar da noite. Creio que enquanto o sol baixava alguém se apossava de mim, e não era qualquer um, era eu mesma, mas uma parte tão esquecida que custei a me reconhecer ali. Saí da varando indo pra lugar nenhum e acabei na areia da praia, numa loucura tão real que nem percebi quando tirei minhas sandálias e segui descalça mesmo, sentindo a areia fria nos meus pés relando nos meus dedos. Andei lentamente escutando o barulho do mar e enquanto eu me perdia em pensamentos meus corpo agitava-se, sei que é loucura relatar assim, mas te digo para não se assustar, comecei a correr tão sem rumo querendo fugir de mim mesma e é uma pena que isso seja impossível, corri do meu egoísmo, da minha mesquinharia, do amargo que até ontem eu sentia em meu peito, do veneno que cultivei em minha saliva, do sonho que eu enterrei antes de vivê-lo, corri mesmo da minha tristeza que jazia ali, do meu ser fraco, da minha alma envenenada pela humanidade. Corri de mim, corri das pessoas, corri do mundo, corri sabendo que a única forma de correr de todos meus fantasmas me custaria caro, mas fui assim mesmo, fugi covarde entrando no mar, primeiro até a cintura, depois me joguei entre as águas. Entreguei-me na tentativa de fugir verdadeiramente de tudo, mas quando o ar me faltava eu me impulsionava para superfície e respirava, trapacei minha fuga e quando já estava cansada voltei molhada para a areia, deitei-me no frio dos grãos de areia observando a lua e ali passei a noite. Acordei cedinho com os primeiros raios de sol, era tão bonito amor que quase chorei e esse outro pedaço de mim eu nem sabia que existia, o sol nascendo depois de tanto devaneio me trouxe a ideia de recomeço. Te contei tudo pra que assim você possa entender que eu não quero ficar perdida em mim mesma, vou rodar por aí procurando todos os meus pedaços e se um dia eu conseguir juntar todas as minhas personalidades em uma só, eu juro meu bem que volto, mas peço que não me espere até porquê eu posso usar minha vida inteira em busca de mim mesma. Não pense jamais que estou fugindo, agora meu amor é que resolvi parar de desertar. Vou sentir tua falta, mas tem muitos pedaços de mim que ainda nem mesmo te conhecem, estão ocultos demais. Fica bem, vê se te alimenta. Beijo meu amor."
                       
Marcos terminou de ler a carta que recebera de sua namorada perplexo. Estava acostumado com o distanciamento que Milena criava em algumas situações, mas nunca imaginara uma ação tão súbita quanto a que estava presenciando. Sentou-se na cama olhando para o teto. Milena agora tinha se entregado a estrada, pegou a moto e foi sem rumo em busca de respostas, respostas essas que ainda sequer compreenderam a pergunta. 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Espero que não morra a minha flor, espero que não morra o meu amor.

Hoje o dia amanheceu quente e eu pra fugir da mesmice e tentar uma nova sensação decidi plantar uma semente. Essa semente eu ganhei de mim mesma, foi um presente que me dei semana passada quando sem entender tive uma vontade enorme de comprá-la, escolhi a semente da flor Adônis e o motivo eu ainda não sei, a variedade era muita, mas aquela flor sem motivo especial me encantou e logo parecia que dentre todas as flores aquela era a mais bonita, a mais singela. Peguei a semente e trouxe pra casa, mas sendo só um grão eu não via graça nenhuma, passei os olhos nela e não vi encanto nenhum, sem saber o que fazer com ela a guardei em uma caixinha. A semana se passou e hoje assim que acordei fui até a caixinha e peguei a semente, eu decidi plantá-la. Não queria mais vê-la dentro de uma caixinha, eu queria cultivá-la. Primeiro eu procurei uma latinha e a enfeitei, isso só pra ficar agradável de olhar, depois coloquei terra lá e em seguida aconcheguei minha semente naquele meio, depois de uns minutos aguei a minha semente,coloquei em cima da mesa da área. Eu estava pensando que talvez ela não vingue, mas isso vai depender da sorte e do quanto eu estou disposta a cultivá-la, terei que aguá-la no inicio do dia e no fim da tarde, depois que ela crescer um pouco terei que mudá-la de recipiente, e sempre cuidar dela, logo terei de adubá-la também e ter muito cuidado com a temperatura, nada de muito sol, nada de muito frio, a temperatura deve ser certa. Sei que é trabalhoso e no fim pode ser que ela morra, mas senti tanto prazer em fazer isso. Me lembrou muito, muito mesmo naquele dia em que resolvi plantar a semente do meu amor em você e você plantou a sua em mim, esse negócio de semente é sempre um risco, mas enquanto for da minha vontade eu irei cultivar minhas sementes, a da minha flor e a do meu amor e se nada vingar eu terei tentado. Mas a minha expectativa é que floresça, se alastre, e seja todo um jardim! 

domingo, 29 de maio de 2011

Se eu pudesse



Ah se eu pudesse acabar com a tristeza do mundo
Levar amor ao mais escuro submundo 
Ah se eu pudesse levar paz pro lado da discórdia
Levar o perdão aos que vivem aflitos na espera da vingança
Ah se eu pudesse fazer brotar sorriso embaixo da lágrima de quem chorou
Levar satisfação aos que frustraram-se olhando no espelho
Ah se eu pudesse cantar pra todos ouvirem o meu canto de paz
Levar uma flor no lugar de bombas e armas
Ah se eu pudesse levar garantia do alimento do corpo e da alma
Do arroz com feijão e da peça, da canção
Ah se eu pudesse abraçar o mundo
Levar fé ao enfermo em agonia 
Ah se eu pudesse entregar esperança em uma caixinha
Dormir tranquila sem ter medo do meu semelhante
Ah se eu pudesse, se eu pudesse sozinha curar todos os males
Sem precisar da ajuda de todos.
Junta tuas mãos as minhas e vamos dar as mãos
Não esqueça que sozinho ninguém muda todo o mundo.
                               
Salvar com paz e mais alma do que bens materiais.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Um sonho de verdade. Realidade pesadelo


Não sei se estou dormindo ou acordada, quem sabe eu esteja dentro de um sonho daqueles que quando sonho é real e quando acordada estou fico a sonhar. É que é difícil te explicar que quando ontem eu sonhava eu voava meu bem, meus pés saiam do chão então fiz da falta de gravidade minha verdade e não, não me acorde agora não. Quando meu olhos se abriram percebi que começara a sonhar, provavelmente pesadelo. Tinha tanta gente egoísta e eu corria tanto para escapar, fugir da hipocrisia e quanto mais eu me afastava mais cansaço eu sentia, tinha gente morrendo inocente e falsos inocentes matando vilões de alma pura em flagrante, tinha guerra e gente com fome pedindo ao semelhante alimento pra alimentar o vício e eu queria tanto acordar que durante a noite me deitei e quando acordei eu velejava em mar calmo, tinha barco e tinha paz. Em certos momentos os olhos eu abria e pesadelos tinha, mas durante a noite eu sempre os olhos fechava e acordava para os pés do chão tirar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Morrer

Morrer deve ser como voar em um infinito, encontrar-se com estrelas, ver horizonte azul do céu, do mar. Deve ser como a flor murchando depois de encantar. Um som de harpa que você acha que vai escutar, mas aí é só silêncio, é lágrima, é lembrança. E há a dor é claro, mas não de quem vai, dor de quem fica. Algumas pessoas acham que deve ter um paraíso e se antecipam, apagam-se antes de brilhar na tentativa de achar um bom lugar, lugar melhor. Aqui o céu fica escuro vez em quando e por isso alguns querem achar uma luz ou apenas descansar daqui. Morrer deve ser quase adormecer olhando a chuva pela janela escutando os estalos das gotas batendo no telhado ou velejar em mar violento, adrenalina, força. Talvez seja encontrar-se consigo mesmo embaixo do luar ou na lua, quem sabe é perder-se. Pode ser o incerto, o não saber. Não sei o que é, não sei como, mas sei que é libertar, partir. Sei que é vazio de quem esteve presente, é frio no calor pra quem fica, é vontade de ver, saudade, saudade. É só e tanta, tanta saudade.

domingo, 1 de maio de 2011

Espero-te felicidade

Às vezes te espero à meia luz com uma taça de vinho suave em minhas mãos, sabendo que tua chegada é de súbito fico a segurar em meus dedos um cigarro, raramente um vapor barato, só para preencher meus dedos que vacilam sobre mim. Me desnudo olhando a mim mesma no espelho tentando prever o meu semblante quando no meio da escuridão sua silhueta  aparecer, mas nestas noites perdidas tua presença tem tardado de forma brusca e eu fico a imaginar como será a sensação. Sei que quando queres aparece gentil e quando me faço segura de que ficará por longo tempo chega tua partida, não nego que sinto prazer nesses caminhos que se encontram e desencontram, pois enquanto admito tua ausência sei que a presença logo virá. Foi sempre assim. Em antigos dias chegou e lentamente foi retirando meus pés do chão, noutros chegou de surpresa me fazendo cometer loucuras, houve também vezes em que estava ao meu lado e eu só pude perceber quando já havia partido, claro que também não esqueço-me quando sem aviso arrancou-me a roupa e ao nascer do sol já havia sem aviso me deixado. Houve momentos em que as minhas ações eram todas planejadas para sua chegada e hoje já não cultivo planos para te encontrar, apenas espero embriagada ou não, sabendo que logo chegará ao subir da lua ou ao dar lugar ao sol. Estranho é aguardar o que dentro de mim vive, afinal, essa minha espera de você que de dentro vem e de dentro habita insana me faz. Te espero em qualquer lugar mesmo em mim estando, preciso que saia de dentro para que de fora eu te sinta e essa é sua ida e vinda. Tua silhueta minha mente imagina e o teu prazer meu corpo inventa. Felicidade em mim vive, mas também se ausenta e por isso jogo-me ao vento esperando ansiosa por mais uma vez tua chegada. É felicidade, sem você o caos habita!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Lágrimas do encanto

Como se fosse para me salvar de mim mesma alguma coisa deveria sair, um gemido, um ganido ou um sorriso. Foi lágrimas e foi sem querer e sem controle. Eu chorei me perguntando se era raiva, tristeza ou alegria, muita alegria. Tinha tanto dentro de mim que eu precisava que saísse, tinha tanta emoção boa, só alguns pesares e uma lágrima caiu. Várias, várias e um sorriso. A emoção chegou de um jeito que quase me atropelou, veio e bagunçou-me, a emoção me abraçou e quis mostrar as possibilidades porque embora pareça que não quase tudo é muito possível, eu senti sabendo que não cabia dentro de mim, era tanto e um tanto tão sem nome que me nego a questionar o que era. Sei que era bom, era de tirar meus pés do chão, era um leve que me pesava e dava para se ver nos olhos de quem quisesse ver que não era só eu. Encheu-me do que não ouso definir, encheu-me salvando eu mesma de um vazio tão grande, de um vazio que esmagava até semana passada e agora encheu tudo. Parece estranho chorar lágrimas de amor pela vida, e chorei sem motivo, chorei por não caber tanto em mim, por entender que não há nada, nada para se entender. O que há é contato, é sentir, é ver com os olhos que habitam na alma.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Às vezes por cima, de vez em quando por baixo.

E lá estava ela, mais uma vez caminhando com um sorriso desengonçado e despercebido na face. Ela não tinha motivos para sair distribuindo seus sorrisos, apenas sentiu vontade e o fez. Talvez achasse engraçado a própria ironia da vida, sempre surpreendendo da forma mais inesperada sua limitada paciência, nada estava em perfeito estado mas ainda assim ela estava satisfeita. E até sorrindo das suas próprias quedas, afinal, que grande ironia não? A vida te entrega quando você precisa e depois ela tira só pra ver a reação, a vida diz que você pode, mas lá na frente ela diz que não, ela te põe em sala ampla e depois te obriga a habitar um casebre. Tantos altos e baixos que ela nem se importava mais, em dias bons ela sorria e em dias ruins ela sorria mais ainda, afinal, se era pra passar situações complicadas em dias não tão bons que ao menos fosse com um sorriso na face. Por mais que estivesse ciente de toda a sua crítica situação ela sentia profundo que tudo iria parar em seu devido lugar, e embora estivesse perdida ela sabia exatamente onde queria chegar e ela sabia que realmente iria estar no lugar em que queria em seu devido tempo, porque ela já havia entendido que a vida podia derrubá-la mil vezes, e mil vezes a vida lhe presentearia com a tal da esperança.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Além do caos do fim

Encolhida em seu refúgio com a xícara de chá quente esquecido ao seu lado, sentou-se e levou a xícara até a boca em um gesto automático, quase banal. Ela nem sentia exatamente onde estava, nem escutava os barulhos ao seu redor, o único som que ela escutava era o de seus próprios pensamentos. Mais uma vez algo a intrigava, ela ficava ali se perguntando se ela era a única pessoa que sentia medo de não ter tempo. As pessoas sempre acham que têm todo o tempo do mundo, mas para ela isso não era verdade. Se sentia sã demais para acreditar na eternidade das coisas, talvez não houvesse amanhã, e ela não descartava a possibilidade, pois sempre que dormia não tinha certeza se acordaria no outro dia, e sabia que só os tolos dormem com a certeza do dia seguinte. E se não houvesse outro dia? O mundo já tem tanto tempo, ela tinha medo de se surpreender com um fim, medo de acabar e nem ao menos dizer "eu te amo!" para aqueles que importavam, medo de não ter tempo de pedir "perdão" para quem ela julgou ter magoado, medo de não estar perto de quem ela queria. Ela nem se importava tanto com o fim, com o modo, o que a fazia estremecer sentindo o chá descendo pela garganta era de um fim que não lhe permitiria tempo o suficiente para dizer tudo o que deveria ser dito, ela tinha mesmo era medo de deixar algo pendente. Sentiu-se só ali apertando a xícara em sua mão. Talvez fosse a única a pensar assim: ter medo do fim inadiável, do fim sem tempo.